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Apenas Para Meus Olhos (Stand By)



A Nostalgia

Quando as noites de Recife são frias assim,elas inevitávelmente me remetem a um tempo atrás.Uma saudade desmedida de coisas que eu vivi,e também de coisas que eu gostaria de ter vivido.
Olhar pela janela e ver uma cidade sempre tão cheia de luz envolvida em neblina é estranho e triste,impossível nessas horas não lembrar de coisas que gosto e de pessoas que eu gostaria que estivessem bem perto,umas muito longe mesmo ali do lado e outras que se foram pra sempre...
A música vai devagar e de som baixo pelo ar,me fazendo lembrar de quando eu estava no colégio e podia matar aula pra ver o menino mais bonito do colégio jogando,quando eu tinha quinze anos e tudo parecia tão urgente e tão eterno,quando tudo era sonho,quando todas as coisas eram planos,projetos,metas de vida... Como isso soava estranho aos ouvidos de amigas que se importavam mais com uma unha quebrada... Eu tinha quinze anos e estava lendo Balzac,Baudelaire,Bandeira,Clarice Lispector...
A música continua tocando baixinha só pra mim e agora falando de distância,de perda,me fazendo lembrar de ontem,da semana passada,da minha vida agora.Quando os planos estão se concretizando,quando eu tenho que lidar com minha vida adulta...
A dureza de pensar que eu não posso começar a chorar e correr pra cama da minha mãe no meio da noite por que tem uma pesquisa me esperando,tenho prazos,responsabilidades,resolver meus problemas profissionais e também da universidade é mexer demais com a vida dos outros... Essa responsabilidade toda pesa tanto e não posso dividí-la com ninguém...
Essas noites frias de Recife me deixam com saudade do que eu poderia ter sido,de uma estrada diferente que eu poderia ter seguido,atitudes diferentes que eu poderia ter tido.Mas tudo o que se há de fazer agora é olhar essa garoa fina que cai,o gato enrolado no sofá e a certeza de que eu tenho muita coisa pela frente,que eu finalmente estou crescendo...
Meu destino é agora...

Escrito por Ana às 01h56
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Partir...

Eu poderia ter agido de forma diferente,eu poderia ter falado,poderia ter gritado,poderia ter chorado... Falando assim eu vou ficar presa naquele círculo sem fim que a palavra “se” tem o poder de fazer.
Mas ele iría embora mesmo que eu gritasse,esbravejasse, arrancasse todos os meus cabelos. Escândalos não iriam mudar nada. Ou iriam? Será que aquele ultimo olhar era de enfado ou de suplica?
Talvez a ausência hoje seria de algum modo diferente,eu poderia ter dito que o amava,que estava com medo do tempo e do espaço,que iria esperar diligentemente seu retorno,e comemorar sua volta,e tudo seria como antes. Acredito que mesmo assim ele iria embora,minhas suplicas ,meus gritos, minhas explicações só existiram em mim e se fossem externadas não o reteria.
Naquele túnel gelado de um aeroporto,eu vi minhas esperanças,muitos de meus sonhos e de meus planos irem embora para outro país.Com ele forma embora varias partes de mim,a certeza de que o amor existe,a eterna companhia no cinema ,o intelecto para discutir filosofia,pra discutir novela,a disposição para brincar com o gato,para fazer brigadeiro,para pentear meus cabelos,pra tirar minha roupa... Olhos cálidos,que me despiam antes de suas mãos suaves e seguras me tocarem,olham agora outras paragens.
Aqui na cidade das pontes sobrou um buraco... Uma incerteza,uma confusão sobre o que fazer agora.Ainda alguns olhares incertos dos amigos em comum,sem saberem o que dizer diante de uma estátua ruindo.Sem falarem dele pra mim,estrategicamente proibidos de falarem de mim para ele,sob pena de rompimento eterno.
Na estante estão os livros,os cd’s,os seres sem espécie de pelúcia,diários... Nesses diários os dias de choro e sorrisos e cartas e bilhetes e fotos...
Mesmo após semanas ,algumas pessoas não sabem da separação,perguntam por ele a mim.E como dói responder e lembrar que acabou.Dizer que eu não sei dele,não sei se está tomando o remédio da alergia,se continua sem saber mexer em alguns sites,se continua desenhando tão bem,se ainda gosta tanto de suco de melancia,se ainda vai religiosamente ao cinema uma vez por semana,se ainda lembra de mim quando escuta aquela música do Los Hermanos...
Quando as pessoas perguntam eu me dou conta que agora ele é um estranho... Não sei nem seu endereço...
Dia após dia a dor se cristaliza,mas não diminui.O hiato não é apenas geográfico ,é também de palavras.A nossa mudez,nosso silencio nunca vai deixá-lo saber o quanto sofri,o quanto sofro e o quanto ainda sofrerei com toda essa distância. E eu nunca saberei se naquele avião ele pensava no futuro sem sua lembrança pousar no passado,ou se chorava a dor dos que perdem...
Ainda machuca lembrar... Mas é inútil tentar,sabendo de antemão que eu nunca vou poder esquecer.

“ Quem sabe o que é ter e perder alguém?
(...)
Quem sabe o que é ver que sem quer partir? "
( Rodrigo Amarante )



Escrito por Ana às 21h21
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